Texto: Avestruz - Mário Prata
Objetivo: Construção de uma
situação de aprendizagem para explorar, desenvolver e ampliar capacidades de
leitura a partir das seguintes estratégias:
Antes do início da leitura
1. Ativação
do conhecimento de mundo; antecipação ou predição; checagem de hipóteses.
Lançamos na
sala algumas perguntas:
- Por que será que o texto se chama avestruz?
- Você já viu uma avestruz?
- Como seria ter uma avestruz de animal de estimação?
- Quem conhece a expressão “ter estômago de avestruz”? O que significa?
- Quem já comeu carne de avestruz?
- Sabia que existe corrida de avestruz?
Após a leitura pelos alunos
e pelo professor
2. Localização
de informação; comparação de informações; generalizações.
- Pedir aos alunos que marquem as informações principais sobre as características da avestruz citada no texto pelo autor: nome científico, o que come, seu tamanho, quantos filhotes, reprodução durante a vida, comparar o espaço onde elas costumam viver e se haveria possibilidade delas viverem num apartamento em Higienópolis que é um bairro de classe alta em São Paulo .
3. Produção
de inferências locais: produção de inferências globais
- Levar os alunos a opinarem em relação ao comportamento do garoto de dez anos em querer uma avestruz de presente de aniversário.
- Por que o garoto desistiu de ter uma avestruz e se interessou em trocar por gaivotas e urubus?
- Se os alunos estivessem no lugar desse garoto teriam esse comportamento?
- Como cada um terminariam a crônica se fosse ele o autor do texto.
4. Recuperação
do contexto de produção; definição de finalidade e metas da atividade de
leitura.
Definimos que a meta de
leitura é a compreensão do texto, então é necessário discutirmos.
Após a
localização dos trechos principais chegarmos à conclusão do gênero, pois
através do gênero é que definimos que a intenção do autor é criar humor pela
situação do nosso cotidiano, uma
das características da crônica que é uma narrativa atual. Perguntar ao aluno
que elementos do próprio texto confirmam isto.
5. Percepção das relações
de intertextualidade; percepção das relações da interdiscursividade.
Avestruz
Tava cansado de viver lá na roça
De andar só de
carroça, resolvi então mudar
Vendi meu
sítio, vendi vaca e galinha
E peguei tudo
que eu tinha na cidade fui morar
O meu dinheiro
tava num banco guardado
Veio um cara
engomado disse vou te dar uma luz
Mais que
depressa peguei o meu capital
Fiz um negocio
legal comprei tudo em avestruz
O paladar desse
bicho é aguçado
Ta no seu papo guardado o dinheiro que eu pus
Avestruz hoje eu to enrolado
Avestruz que
bichinho esfomeado
Avestruz come
terra e come gado
Avestruz realmente to quebrado
Pra me ajudar a tocar este negocio
Arrumei foi
muito sócio veja só no que foi dar
Cabeleireira
empenhou sua tesoura
Diarista a
vassoura hoje vive a reclamar
Tinha um amigo
que dizia ser esperto
Teve prejuízo
certo hoje ta desesperado
Foi a motoca,
foi a égua e a poupança
Realmente foi
lambança, só deu cheque carimbado
Até o vovô que
guardava um dinheirinho
Comprou quatro filhotinhos lá se foi seu ordenado
Avestruz
hoje eu to enrolado
Avestruz que
bichinho esfomeado
Avestruz come
terra e come gado
Avestruz realmente to quebrado
Neste
negócio de comprar este bichinho
Fiquei falando
sozinho e agora o que fazer
Comeu o carro,
foi também a camioneta
Só não foi a
bicicleta pois não consegui vender
Era feliz e
vivia controlado
Com a família
do lado não devia pra ninguém
Na quebradeira
que esse bicho me deixou
Minha mulher me
abandonou e meus amigos tamém
To apertado
igual um pinto no ovo
Este bicho é um estorvo, nem me fale nesse trem
Avestruz
hoje eu to enrolado
Avestruz que
bichinho esfomeado
Avestruz come
terra e come gado
Avestruz realmente to quebrado
Avestruz, comeu até minha aposentadoria!!!
Dito popular: “Fulano tem estômago de Avestruz”
Dito popular: “Fulano tem estômago de Avestruz”
Levar o aluno a perceber a semelhança entre a
característica da avestruz citada no texto com a letra da música “Avestruz” de
Dé di Paula e Zé Henrique comparando com o dito popular, anotar na lousa as
conclusões dos alunos e trabalhar uma ficha técnica sobre a avestruz.
6. Percepção de outras
linguagens; elaboração de apreciação estéticas e/ou afetivas; elaboração
apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos.
O texto se
torna interessante porque avestruz é um pedido inusitado pra qualquer pessoa, e
ainda como o autor compara a um camelo e diz que o bicho é um erro da natureza.
Perguntar ao aluno se ele entenderia da mesma forma se não soubesse o que é uma
TPM. Só tem humor a partir do momento que o aluno conheça a Sigla, que hoje é
comentado até por criancinhas.
2ª. Proposta:
Numa sociedade
com tantas discrepâncias como a em que vivemos, em que o relacionamento entre
pais e filhos, muitas vezes, a afetividade dá lugar relações comerciais, se
torna oportuno aproximar mundos opostos. A leitura de “A última crônica” de
Fernando Sabino é uma proposta para fazermos uma ponte entre essas realidades.
A Última Crônica
Fernando
Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para
tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de
escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com
êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de
cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso
conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de
ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do
acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança
ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do
essencial.
Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa
das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção
de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma
negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido
pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as
perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três
seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição
tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se
preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente
retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta
no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar
olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do
garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para
atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da
naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do
freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão,
larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena
fatia triangular. A
negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho
que o garçom deixou à sua frente.
Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe
espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a
Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto
ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força,
apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada,
cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra
você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las
na bolsa.
A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e
põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura
-- ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo
de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo
botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da
celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram,
ele se perturba, constrangido -- vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas
acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como
esse sorriso.
Texto extraído do livro "A Companheira de
Viagem", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174
Após a leitura, sugere-se o
debate sobre o seguinte tema (a sala poderá ser divida em duas turmas, uma em
defesa do tema e a outra para fazer o contraponto):
- Até que ponto, por amor ao filho, por querer proporcionar-lhe o melhor, pais se sacrificam para satisfazer os desejos mais exóticos de seus rebentos?
- Após o debate será proposto a produção de um texto opinativo individual em que o aluno fará a exposição de seu ponto de vista.
- Considerando o texto "Avestruz" de Mário Prata, propor discussão sobre se os alunos acham normal o pedido do garoto.
- A importância da imposição de limites pelos pais.
- Logo em seguida, assistir ao filme “O mentiroso” (1997) de Tom Shadyac, com Jim Carrey, cuja a trama tem início com um garotinho fazendo um pedido inusitado ao apagar a velinha de seu bolo de aniversário: para que o pai nunca mais minta. O desenrolar, muito bem humorado, traz um pai envolvido em situações complicadíssimas permeadas por uma sinceridade cruel.
Profa. Josety
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